quinta-feira, 22 de abril de 2010

um pouco de carinho

Não era igual aos outros,tinha um comportamento estranho,no mínimo peculiar.Isolava-se de todos e na escolha de grupos sempre ficava como última opção.Sua aparência não atraia pela beleza e sim pela bizarrice.Todos a julgavam como um ser diferente,sempre a tratando da pior forma possível.Era alvo de insultos e a tratavam com hostilidade,sem falar nos apelidos que lhe devam.Era odiada sem motivos,talvez por ser,apenas,uma pessoa que não encaixava-se ao "padrão".A via indiferentemente pois não ligava muito para o que eles faziam com ela.Nunca tive nenhum momento de conversa ou,simplesmente,chegamos a trocar poucas palavras.Mas esse dia foi diferente...
Me dirigi ao ponto de ônibus,como de costume.O relógio marcava meio dia.
Enquanto esperava a condução,aquela garota desajeitada,de aparência estranha,aproximava-se.Quase não contivo o riso quando ela tropeçou em uma pedra no meio da rua.
Ela veio e sentou-se ao meu ledo e,sem nada dizer,ficou a esperar o ônibus,da mesma forma que eu.
Notando-a mais próxima ela era ainda mais descamada,cheia de desproporções e mais bizarra ainda do que quando não a notara próxima.Seus cabelos volumosos e embaraçados faziam um par perfeito com seu óculos de lentes grossas.Nesse tempo meu ônibus chegou e por coincidência era o mesmo ônibus que a senhorita estranha esperava.
Restavam apenas dois assentos vagos os quais foram preechidos por eu e ela.
Embora fossemos da mesma escola e da mesma turma,nunca notara que ela pegava a mesma condução que eu.
Carregava comigo um livro de um autor que eu gostava muito,ela o notou e perguntou-me se eu sempre lia os livros dele,a respondi com um simples e seco sim,sem dar chances de iniciar um diálogo mais prolongado.Ela insistia nas perguntas mas eu sempre a respondia com um ar de desdém.Já aborrecida,pelo meu tratamento hostil,ela disse:"Pelo fato de eu não ser como a maioria das outras meninas,não significa que eu não tenha sentimentos como os outros",e levantou-se para sair do ônibus.Aquilo me deixou sem palavras,sem reação e por mais que eu não quisesse acreditar,ela tinha razão,eu a estava julgando antecipadamente.
No dia seguinte fui a escola com a intenção de me desculpar por ter sido tão rude.Mas ela não havia ido à aula;achei que tivesse ocorrido algum imprevisto e deixei para o dia seguinte.Mas eu estava enganado pois durante toda a semana seguinte ela não apareceu.Ninguém na turma entendia o motivo de tantas faltas,pois ela costumava ser ótima aluna e,quase nunca,faltava às aulas.
Na semana seguinte veio o comunicado no jornal da cidade "Garota se joga do décimo andar".Fiquei pasmo ao saber que aquela garota era ela.No mesmo periódico vinha a cópia de um trcho da carta que ela havia escrito antes do ocorrido.
"Nunca fui feliz,meus colegas me odeiam,mas quando soube que quem eu amava me odiava,eu morri por dentro"
Nunca imaginei que pudesse matar alguém,mas eu o fiz.Pelo simples motivo de não perceber que,por trás de uma figura não tão convencional,poderia estar uma pessoa que necessitava apenas de um pouco de carinho.

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